O canal televisivo NOW, que pertence ao grupo Medialivre (anteriormente conhecido como Cofina Media), o segundo canal de televisão do grupo, que também detém a CMTV, apresentou ontem uma peça jornalística dedicada a alegados atos de favorecimento político na Câmara Municipal de Mafra, com origem no grupo que apoia o atual presidente, Hugo Moreira Luís.

Hugo Moreira Luís foi durante muitos anos, enquanto vereador da câmara foi o “ministro das finanças” de Hélder Sousa Silva, até que este abandonou a câmara para se dedicar à campanha que o haveria de eleger para o Parlamento Europeu.

Hugo Moreira Luís assumiu então a presidência da Câmara de Mafra, contra a vontade de Hélder Sousa Silva, que preferia ter visto nesse cargo, a então vice-presidente Aldevina Rodrigues, atual Presidente da Assembleia Municipal.

Realizadas as autárquicas de 2025, Hugo Moreira Luís que se apresentou em lista própria, surpreendentemente, por pouco mais de uma centena de votos, ganha a eleição, pondo assim fim “facilmente” a 43 anos de domínio total, político, social, cultural e económico, do PSD Mafra.

Célia Almeida é uma munícipe que descobriu o poder que tem a participação dos cidadãos nos espaços que os municípios colocam, por força da lei, ao serviço dos munícipes entre eleições.

Independentemente das razões que a movam, esta munícipe utilizou várias vezes o tempo que as sessões da Assembleia Municipal dedicam à intervenções dos munícipes. Enviou e-mails à câmara e pediu várias vezes para ser recebida pelo presidente da edilidade. Tentou também mobilizar o Jornal de Mafra para uma campanha destinada a auxiliar familiares seus atingidos pelas intempéries que assolaram a região de Leiria.

Segundo Hugo Moreira Luís, a Sra. Célia Almeida, “numa situação excecional fez um pedido à câmara municipal, e foi deliberado em câmara municipal atribuir-lhe uma habitação, que a Sra. rejeitou”.

já na última sessão de Assembleia Municipal, Hugo Moreira Luís, em resposta a questões apresentadas por Célia Almeida, afirmou que, relativamente às avenças contratadas pelo município, os valores “estão divulgados” e que estas tem sido comuns no “ultimo ano, nos últimos anos, talvez dos últimos 10 ou 20 anos”, por “haver uma grande dificuldade em contratar recursos humanos e, por vezes, a contratação em regime de avença é um processo mais ágil, mais flexível, mas totalmente transparente, como é todo o processo de aquisição de bens e serviços que esta câmara municipal, pelo menos de há 12 anos a esta parte eu estou a exercer funções na autarquia. Assim tenho visto”.

Na peça do NOW dá-se voz a Célia Almeida e a outra fonte, que oculta a sua identidade, mas que, pela forma como se expressa deve estar ligada direta ou indiretamente à estrutura da câmara de Mafra e/ou à oposição.

A peça do NOW faz-se em torno da ideia, que “na Câmara Municipal de Mafra, há suspeitas de que vários apoiantes do Presidente estejam a ser beneficiados com contratos”. referindo-se a “candidatos [que] reprovam nos concursos, mas logo a seguir celebram contratos com a autarquia“, candidatos este, que de alguma forma estiveram ligados à campanha autárquica de Hugo Moreira Luís.

Mais grave, a suspeita levantada pela reportagem, segundo a qual, “o atual autarca, o independente Hugo Moreira Luís, tenha usado dinheiros públicos para pagar despesas da própria campanha eleitoral autárquica”.

Relativamente a esta última questão, o Jornal de Mafra consultou o Tribunal Constitucional, entidade onde são depositados os orçamentos de campanha eleitoral dos partidos, coligações e grupos de cidadão que concorreram às últimas autárquicas, mas na secção de Orçamentos de Campanha – Grupos de Cidadãos, não foi possível encontrar os dados referentes ao grupo #HML2025.

À pergunta da repórter: “milhares de euros gastos em Jobs for the Boys. Candidatos reprovados nos concursos, mas que logo a seguir celebram contratos com a Câmara. E há até suspeita de que a autarquia de Mafra possa ter pago despesas da campanha eleitoral do atual Presidente, o independente Hugo Moreira Luís. É legítimo levantar-se a dúvida se a Câmara não terá pago afinal a sua campanha, Sr. Presidente? “, responde o presidente da câmara de Mafra, “toda a informação que consta na Câmara Municipal, ela é pública e é consultável por todas as pessoas singulares e coletivas”.

No decorrer da reportagem são apontados vários casos, nomeadamente os seguintes:

Confrontado pela repórter. relativamente a estes contratos, Hugo Moreira Luís afirmou: “Não vou alimentar esse tipo de informação que pretende saber, porque ela está disponível na Câmara Municipal (…) a Câmara Municipal tem toda a informação disponibilizada […] a suspeita de que o ajuste direto celebrado com o município possa ter suportado total ou parcialmente trabalho de campanha é falsa. Rejeito-a de forma clara e inequívoca”.

A reportagem foca-se depois em contratos por ajuste direto que beneficiaram candidatos anteriormente excluídos de concursos, mas que foram contratados logo a seguir, “ou seja, não entraram pela porta, entraram pela janela”.

Como exemplos, a reportagem cita os casos de Beatriz Fernandes, Ana Rita Almeida, Afonso Mansilha Nobre, Alexandra Neves Fortes, Gonçalo Quaresma e Adelaide Vicente, esta última, “tem uma avença para assessoria técnica, fiscalização e vistoria de projetos de obras particulares, afeta ao Gabinete de Apoio à Presidência. 241 dias, 19.950 euros. O contrato foi celebrado a 16 de fevereiro de 2026, mas nesta publicação nas redes sociais do município, um mês antes, já surge numa reunião de revisão do PDM”.

A este caso, responde o presidente da Câmara de Mafra, “todos os serviços municipais reforçam-se em função das suas necessidades e vão ao mercado de trabalho e vão contratar serviços e ou contratações que entendam necessárias”.

Do outro lado da “barricada”, com a derrota eleitoral em Mafra, vários elementos do PSD então a prestar serviço na Câmara de Mafra, ligados à gestão do antigo presidente Hélder Sousa Silva, “transferiram-se de armas e bagagens” para a Câmara Municipal do Sobral de Monte Agraço, atualmente dominada pelos social democratas, e para a Câmara Municipal de Lisboa, também social democrata.

Pelo menos as associações de bombeiros de Mafra e da Malveira, que recebem apoio financeiro da câmara, estão há longos anos entregues a militantes social democratas.

A Câmara de Mafra entregou uma avença a Carla Galrão, militante do PSD e atual presidente da junta da União de Freguesias da Malveira e S. Miguel de Alcainça, à altura destacada militante do PSD.

Quando Aldevina Rodrigues abandonou a Câmara Municipal de Mafra mudou-se para o Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde de Santa Maria (Ministério da Saúde) e em julho de 2025 foi promovida a Diretora do Departamento de Desenvolvimento Social do Instituto da Segurança Social, I.P (entidade governamental).

Num concelho governado durante quase 50 anos pelo PSD ganhar a câmara, embora “à pele”, a um partido bem firmado no concelho e no país é, por si só, um feito, que poderia/poderá abrir portas a uma gestão mais mais transparente, menos “clubista”, menos baseada em grupos de interesses e mais focada no interesse público.

Quem perdeu o poder movimenta-se para o retomar, é a “lei da vida” deste sistema. Quando aqueles que detêm o poder dão tiros nas pernas”, seja a nível nacional ou a nível local, para a outra fação, a tarefa de retomar o poder fica mais facilitada.

Não importa a cor da pele política, o que importa mesmo é a elevação ética e o sentido de compromisso com os eleitores e talvez por isso, a política tenha de deixar de ser uma atividade profissional, transformando-se, isso sim, num serviço cívico.

Estranha-se que cidadãos que trazem sempre nos lábios a defesa da iniciativa privada, nas suas vidas privadas, se colem como lapas ao setor público e aos fundos suportados por impostos.

O modelo de governança do estado central, regional e local está inquinado. Custa milhões ao país que paga impostos, e só aos solavancos resolve problemas (quando não os agrava).

Mantêm-se círculos de interesses (de todas as cores), que financiam as tomadas do poder por parte dos partidos ou de outros grupos (de interesses), círculos que depois, tomado o poder, esperam que os dinheiros públicos paguem os esforços que fizeram para materializar as vitórias eleitorais.

Vivemos num ciclo pernicioso que se alimenta a si mesmo, nos governos centrais, nas regiões e no poder local.